Buencafé
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Quando Mauricio Trujillo assumiu a Buencafé, encontrou um desafio peculiar: a empresa já era bem-sucedida. Com mais de 50 anos de atuação e uma reputação sólida, não precisava de resgate, mas sim de uma transformação complexa. A marca colombiana está situada em Chinchiná, no departamento de Caldas, no coração da Cordilheira dos Andes.
As quase três décadas em operações de consumo em multinacionais ao redor do mundo ensinaram a Trujillo, CEO da empresa, uma lição importante: as empresas não falham por crises repentinas, mas sim por se tornarem irrelevantes gradualmente. Portanto, a sua abordagem precisaria ser diferente, radicalmente diferente.
O diagnóstico foi claro. A empresa dominava a produção de café solúvel, mas carecia de três elementos essenciais para competir globalmente: visão internacional, inovação contínua e valor agregado. Esse diferencial distingue os produtores de matérias-primas das marcas globais de consumo.
“É como vender sal em pacotes”, explica Trujillo. “Quem compra sal só se preocupa em encontrar o menor preço. Precisávamos focar em valor agregado: um produto final que exibisse o logo da Federação Nacional de Cafeeiros, um selo que abre portas em todo o mundo e representa uma promessa de qualidade”.
De commodity a marca global
Buencafé
Café colombiano investe em inovações
A transformação foi estrutural. A produção deixou de concentrar esforços em café sem marca para clientes industriais e passou a focar em produtos embalados, com identidade própria e destinados ao consumidor final. Em apenas dois anos, a empresa aumentou de 50% para quase 80% a geração de faturamento com produtos acabados.
Essa mudança estratégica melhorou o desempenho financeiro do negócio. Em 2024, a empresa atingiu um recorde histórico com vendas de US$ 220 milhões (R$ 1,34 bilhão), um crescimento de 20% em relação a 2023. Em 2025, os resultados superaram as expectativas: US$ 281 milhões (R$ 1,71 bilhão) em vendas e US$ 47 milhões (R$ 286,7 milhões) em lucros, com crescimentos de 24% e 27%, respectivamente.
Com esse impulso, a meta para 2026 é alcançar US$ 330 milhões (R$ 2,01 bilhões) em faturamento.
Tendências e novos hábitos de consumo
Ao analisar os fatores de crescimento, Trujillo evita discursos e foca em dois aspectos: o talento humano e a habilidade de identificar tendências antes da concorrência. Ele menciona ter encontrado uma equipe dedicada e com um forte senso de pertencimento à cafeicultura colombiana.
“Encontrei uma empresa incrível. Descobri um grupo comprometido, que se sente profundamente ligado à Federação e à cafeicultura colombiana”, recorda. “95% dos resultados de uma empresa são gerados pelas pessoas. Aqui, esse ingrediente essencial já estava presente”.
A segunda vantagem competitiva surgiu de um método de trabalho pouco convencional: o executivo dedica 80% do seu tempo visitando clientes em mais de 60 países. Isso possibilitou antecipar movimentos do mercado global antes que chegassem à Colômbia ou à América Latina.
“A pandemia transformou todos em baristas”, explica. “As pessoas começaram a preparar café em casa, a experimentar receitas e a compartilhar isso nas redes sociais. Isso redefiniu completamente os hábitos de consumo e criou oportunidades massivas para muitas empresas”.
Os números globais corroboram essa transformação. Atualmente, 15% do café consumido no mundo é frio (uma categoria quase inexistente há dez anos). Nos Estados Unidos, a participação do café frio representa 50% do mercado, enquanto em países como China e Japão chega a 80%.
Além disso, a Geração Z consome até 80% menos álcool do que as gerações anteriores, tornando o café um protagonista em novos espaços sociais. O consumidor jovem atual busca conveniência, descarta processos complexos de preparação e prioriza produtos com benefícios adicionais como proteína, colágeno, sabores diferenciados ou experiências sensoriais únicas.
“Por isso o boom das coffee parties, onde o café frio, o café saborizado e os coquetéis não alcoólicos à base de café são protagonistas. São momentos de consumo totalmente novos”, aponta.
Inovação e expansão agressiva
Buencafé
Trujillo em ação de marketing da empresa
Entretanto, a resposta da Buencafé foi tão estratégica quanto ousada. A marca Buen Día, que já liderava o segmento de cafés saborizados na Colômbia, se transformou no laboratório de inovação da empresa. E seu lançamento mais disruptivo veio com um produto inesperado: um café saborizado com aguardente Amarillo de Caldas, desenvolvido em parceria com a Indústria Licoreira de Caldas.
“Quando você prova, parece que tem aguardente”, descreve Trujillo com entusiasmo. “Combinamos esse momento festivo colombiano de tomar um ‘guarito’ com a experiência do café. A recepção do mercado foi incrível”.
Contudo, o portfólio de inovações vai muito além disso. A Buencafé lançou biscoitos com café, sorvetes, barras de proteína com 13 gramas por porção (quase um terço do requerimento diário de um adulto) e um produto pronto para beber com 95% de leite que compete diretamente com bebidas lácteas tradicionais. Inclusive, foram criados produtos sob medida, como um café com notas de xarope de bordo (maple), para grandes varejistas internacionais como o Walmart.
Cada lançamento atende a uma tendência específica identificada no momento certo, antes que o mercado se saturasse. O resultado é claro: atualmente, a inovação representa cerca de 10% das vendas totais da Buencafé, cinco vezes mais do que a média de empresas tradicionais do setor cafeeiro, que varia entre 1% e 2%.
Simultaneamente à inovação de produtos, a empresa impulsionou uma expansão internacional agressiva. Até 2023, a marca Buen Día tinha presença apenas na Colômbia e no Equador. Atualmente, opera na Espanha, Estados Unidos e China, e possui planos concretos para chegar à América Central, México, Peru e Bolívia até 2026.
Paradoxalmente, o maior desafio operacional para 2026 não será aumentar as vendas, mas sim produzir o suficiente para atender à demanda já comprometida. “Já estamos quase com tudo vendido para o próximo ano”, admite Trujillo. “O desafio agora é cumprir essa demanda sem sacrificar qualidade ou serviço”.
Para isso, a planta de produção opera 24 horas por dia, sete dias por semana, com tecnologia de ponta importada e uma equipe altamente especializada.
No entanto,










