As exportações para os EUA caíram 28% no último ano, influenciadas por uma redução de 40% entre agosto e dezembro, período em que esteve em vigor a tarifa de 50%
Segundo informações do Relatório do Café Solúvel do Brasil 2025, produzido pela Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (ABICS), as exportações do produto somaram 85,082 mil toneladas, equivalente a 3,688 milhões de sacas de 60 kg enviadas ao exterior no ano passado, o que representa uma diminuição de 10,6% em relação às 95,221 mil toneladas (4,127 milhões de sacas) registradas no ano anterior.
Por outro lado, as receitas geradas pelas exportações cresceram 14,4% em relação a 2024, atingindo o recorde de US$ 1,099 bilhão. “Esse aumento no valor, apesar da queda no volume, se deve à valorização da cotação da matéria-prima, tanto dos cafés arábicas quanto dos canéforas (conilon e robusta), elevando o preço do café solúvel no mercado”, explica Aguinaldo Lima, diretor executivo da ABICS.
IMPACTO DO TARIFAÇO DE 50% NO MERCADO DOS EUA
A implementação da tarifa de 50% sobre o café solúvel brasileiro importado pelos Estados Unidos teve um impacto considerável nas exportações do produto, que diminuíram 28,2% em comparação a 2024.
“Durante o período de aplicação dessa tarifa de 50%, entre agosto e dezembro, a redução foi ainda mais acentuada: 40% em relação ao mesmo período do ano anterior. Isso evidencia o impacto direto e imediato da barreira comercial na competitividade do café solúvel brasileiro nesse mercado crucial”, ressalta Lima.
Ele observa que a tarifa, que ainda está em vigor sobre o produto, torna o café solúvel brasileiro excessivamente caro, levando os importadores dos EUA a buscarem alternativas em países concorrentes com tarifas menores. “Isso resulta na perda de participação de mercado para o Brasil e na necessidade urgente de reavaliar as estratégias de diversificação de mercados”, complementa.
PRINCIPAIS IMPORTADORES
Os EUA, evidenciando a importância desse mercado para o café solúvel brasileiro, mantiveram-se como o principal destino das exportações, mesmo com a tarifa de 50% que entrou em vigor em agosto. Os norte-americanos compraram, em 2025, o equivalente a 558.740 sacas (-28,2%).
Completando o top 3, estão a Argentina, que importou 291.919 sacas do produto, com um crescimento de 40,2% em relação a 2024, e a Rússia, com 278.050 sacas, representando um aumento de 9,8% no comparativo anual.
Entre os principais destinos do café solúvel em 2025, destaca-se a Indonésia, com 165.308 sacas; o México, com 128.595 sacas; o Vietnã, com 118.691 sacas; e, principalmente, a Colômbia, que ampliou suas compras em 178,2%, totalizando 130.029 sacas. “O destaque a esses países se deve ao fato de serem grandes e tradicionais produtores de café solúvel”, informa o diretor executivo da ABICS.
REDIRECIONAMENTO E ACORDOS COMERCIAIS
Segundo Lima, o tarifaço imposto pelos EUA e a subsequente queda nas exportações para o principal importador do café solúvel do Brasil indicam a necessidade de o país considerar um possível redirecionamento do produto para outros mercados, embora o cenário atual seja crítico e desafiador.
“O Brasil possui um número relativamente limitado de acordos comerciais abrangentes, e as tarifas impostas por outras nações e blocos econômicos prejudicam a competitividade do café solúvel brasileiro no cenário global”, explica.
Além disso, ele ressalta que “não é uma tarefa simples” redirecionar volumes tão significativos, como os que eram destinados aos Estados Unidos, em um curto espaço de tempo.
“Novos mercados precisam ser desenvolvidos, e isso requer tempo, investimentos em marketing, adaptação a diferentes regulamentações e, crucialmente, a negociação de condições comerciais favoráveis, frequentemente por meio de acordos bilaterais ou blocos econômicos. A falta de acordos pré-estabelecidos dificulta uma resposta ágil a choques comerciais, como o imposto pelos EUA”, conclui o executivo da ABICS.
MERCADO INTERNO
Em contraste com o volume exportado, o consumo interno de café solúvel atingiu um novo recorde no ano passado, quando o Brasil absorveu 27,008 mil toneladas, equivalentes a 1,170 milhão de sacas, um aumento de 9,5% em relação a 2024.
“Esse desempenho reflete uma crescente preferência do consumidor brasileiro por essa modalidade de café e o sucesso das estratégias das indústrias de café solúvel voltadas para o mercado interno. A inflação menor sobre o produto — 34% no acumulado de 2024/25 contra 75% do café torrado e moído — também deve ter contribuído”, analisa Aguinaldo Lima.
RISCOS COM A REFORMA TRIBUTÁRIA
A aprovação da Reforma Tributária extinguirá, a partir de 1º de janeiro de 2027, as contribuições sociais sobre a receita bruta (PIS/Pasep e COFINS) para o segmento de café solúvel, o que impedirá a apuração do crédito presumido de 7,4% do valor adquirido de café verde industrializado para exportação a partir dessa data.
Dessa forma, entre o primeiro dia do próximo ano e 31 de dezembro de 2032, durante a transição para o novo modelo tributário, as exportações de café solúvel enfrentarão um aumento em seu custo implícito devido à falta de uma medida compensatória para o fim do crédito presumido.
“O impacto é devastador! Com o fim do crédito presumido, a indústria brasileira do setor, considerando os valores médios do café em 2025, perderá R$ 430 milhões, o que corresponde a 7,4% do valor exportado de café solúvel no ano passado. Isso significa que, por saca, o crédito presumido equivale a R$ 105,08 em resíduos tributários. Considerando a cotação média do dólar para venda em 2025, esses R$ 105,08 correspondem a um acréscimo de US$ 19,89 para cada saca desse produto exportado, resultando em uma ‘exportação’ de uma saca em tributos a cada 14 sacas embarcadas”, revela o executivo da ABICS.
PERSPECTIVAS 2026
O desempenho do café solúvel brasileiro em 2025 destaca a dicotomia entre um mercado interno robusto e os desafios crescentes no comércio internacional. Enquanto o consumo doméstico demonstra grande potencial de crescimento, a possível perda de uma parte significativa do mercado norte-americano e a vulnerabilidade a medidas protecionistas, como a tarifa de 50%, ressaltam a necessidade de uma estratégia de longo prazo mais sólida para as exportações.
A busca por novos mercados e a intensificação das negociações de acordos comerciais são essenciais. A União Europeia, com seu alto volume de consumo e as perspectivas de redução tarifária por meio do acordo Mercosul-UE, representa uma rota promissora no médio e longo prazo.
Entretanto, é fundamental que o Brasil continue a diversificar seus destinos de exportação, melhore sua competitividade e busque uma agenda mais ativa de acordos comerciais, que possam mitigar os riscos de concentração de mercado e as barreiras tarifárias.
Adicionalmente, um dos maiores desafios para 2026 será encontrar soluções junto aos Poderes Executivo e Legislativo do Brasil para amenizar os impactos da perda do crédito presumido com a Reforma Tributária.
A necessidade de diálogo e de propostas que possam compensar essa desvantagem competitiva se torna um pilar fundamental para a sustentabilidade e o crescimento do setor.
“O recorde de divisas alcançado em 2025, apesar da queda no volume exportado, demonstra a resiliência de um setor que, nos últimos seis anos, investiu cerca de R$ 2,5 bilhões em novas plantas de produção, expansões e sustentabilidade, o que exigirá uma abordagem estratégica e proativa diante de um cenário geopolítico, comercial e tribut










