O movimento de ampliação e renovação das áreas de cultivo é uma realidade consolidada, mas os preços apresentarão desafios.
Nos últimos anos, o aumento nos preços do café tem impulsionado um intenso movimento de expansão das áreas e renovação das lavouras no Brasil.
Em 2021, uma geada severa afetou regiões produtivas importantes no país, levando muitos produtores a migrarem para outras culturas devido ao receio das mudanças climáticas. Contudo, desde 2023, com a forte valorização do café no mercado, parte desses produtores decidiu retornar ao cultivo do grão.
Embora ainda não seja possível mensurar o impacto do aumento da área de plantio de café no Brasil, há um consenso de que a expansão é contínua e deverá se refletir na oferta global de forma significativa nas próximas safras.
“Está acontecendo e veremos o reflexo de tudo isso nas safras 27, 28 e adiante, tá? É uma realidade que abrange todo o sul de Minas e outras áreas também. Este ano, algumas regiões registraram recordes no aumento de área e plantio, além da renovação”, afirmou o gerente da mesa de operações da Minasul, Heberson Sastre.
De acordo com Fernando Barbosa, presidente da Associação dos Cafeicultores do Sudoeste de Minas, realmente o aumento dos preços está impulsionando a ampliação da área plantada em todo o Brasil. Atualmente, nas localidades monitoradas pela Associação, muitos viveiros estão aumentando sua produção, e os produtores estão se esforçando para intensificar o plantio. “Essa dinâmica é crucial, pois estimula a renovação das lavouras. Esse processo é motivado por diversos fatores, incluindo os desafios climáticos e a necessidade de renovação das áreas cultivadas. Considero essa tendência de grande importância para o Brasil. Acredito que, até 2050, será necessário dobrar a produção. O Brasil continua em primeiro lugar na produção, o que proporciona competitividade no mercado mundial. No entanto, é necessário equilíbrio, pois o cenário de oferta e um preço justo sempre será um grande desafio”, destacou Barbosa.
Cientes dessa competitividade, mas receosos de investir em expansão, os cafeicultores da região do Cerrado Mineiro estão focando na renovação com novas variedades. Segundo Juliano Tarabal, diretor da Federação dos Cafeicultores do Cerrado, o parque cafeeiro do Cerrado está em expansão desde 2010, abrangendo atualmente um total de 250 mil hectares. “Após as perdas significativas devido à geada de 2021, muitos produtores escolheram diversificar sua cultura, entrando na área do café. Embora o alto custo de produção limite a expansão da área de café aqui, o foco dos produtores locais está na renovação, incorporando novas variedades em sua produção. A ideia é aumentar a produtividade por hectare em vez de simplesmente aumentar a área plantada”, explicou o diretor.
Uma dinâmica semelhante está ocorrendo na região cafeeira do Espírito Santo e no sul da Bahia. Luiz Carlos Bastianello, presidente da Coabriel (Cooperativa Agrária dos Cafeicultores de São Gabriel), afirma que a maior parte dos investimentos tem sido direcionada para a renovação das áreas em produção, uma vez que exige um investimento menor e traz resultados mais rápidos. “Atualmente, observa-se que o produtor continua plantando, inclusive abrindo novas áreas onde antes havia outra atividade. Ao renovar uma lavoura envelhecida ou substituí-la por clones mais produtivos, consegue melhorar a produtividade em menos tempo, muitas vezes já no ano seguinte. Contudo, quando se fala em ampliação, é importante destacar que essa situação traz preocupações, especialmente para pequenos e médios produtores, devido à questão das reservas hídricas”, explicou.
Para Vicente Zotti, analista e sócio-diretor da Pine Agronegócios, a expansão da área de cultivo, especialmente para a safra de 2026-2027, será limitada aos produtores que já assumiram compromissos financeiros, como arrendamentos de terras e compra de insumos. “Aqueles que têm um planejamento mais estratégico e estão mais atentos aos ciclos do mercado provavelmente não expandirão suas áreas nesses anos, pois já antecipam os impactos que essa expansão pode gerar. Já os que estiverem ampliando suas áreas de plantio em 2026 e 2027 estarão, essencialmente, especulando”, completou.
Estudos da consultoria indicam que, em 2027, as áreas em produção aumentarão em 11% em relação a 2025, e em 2028 esse aumento poderá chegar a 13%. “Essa projeção se baseia em visitas realizadas em praticamente todas as regiões produtoras de café arábica, além de consultas a clientes, analistas e agentes do mercado. Nas áreas consideradas em menor escala, como Acre e Rondônia, o acompanhamento é menos intenso em comparação à produção total do Brasil. Portanto, problemas na produção de arábica impactam mais o mercado do que em estados como Espírito Santo, Bahia, Acre e Rondônia. Em todas as áreas visitadas e consultadas, notamos um aumento na área de cultivo, sem exceção. Em relação à renovação da área de cultivo, consideramos isso um processo natural e positivo para os anos de 2028 e 2029, à medida que as margens se ajustam e os produtores, já capitalizados, realizam a renovação de seus cafezais”, afirmou Zotti.
Apesar das oportunidades e do otimismo em relação à expansão cafeeira no Brasil nos próximos anos, especialistas levantam um sinal amarelo e pedem cautela por parte dos produtores. “É preciso ter cuidado com dívidas prolongadas que não estejam vinculadas ao preço do café. Quando os preços estão altos, os produtores tendem a contrair dívidas, aumentar o custo de vida e fazer investimentos, sem considerar que os preços podem cair drasticamente. É fundamental que os produtores estejam atentos a esse risco, pois, se houver uma superprodução no futuro, os preços podem despencar significativamente, como já ocorreu várias vezes no passado”, alertou Heberson Sastre.










