A Luckin Coffee, empresa chinesa, está mirando diretamente nas ambições premium da Starbucks, americana, ao inaugurar uma loja flagship, também conhecidas como lojas conceito. Essa iniciativa marca a tentativa da rede de se afastar do modelo focado exclusivamente em café barato, que foi responsável por seu rápido crescimento nos últimos anos.
Recentemente, a empresa também começou a ser associada a uma possível aquisição da Costa Coffee, uma rede britânica de cafeterias que pertence à Coca-Cola.
A primeira loja flagship está sendo aberta em Shenzhen, uma cidade que representa o laboratório da China moderna, onde inovação, capital e consumo de ponta se entrelaçam para testar o futuro. A Origin Flagship, com dois andares e situada na fronteira com Hong Kong, oferece cafés filtrados (pour-over) e cold brew, além de bebidas mais sofisticadas, como um latte de tiramisù decorado com um doce.
Os preços praticados são mais elevados em comparação aos tradicionais Americanos e lattes que custam de US$ 1 a US$ 2 (equivalente a R$ 5,3 a R$ 10,5 na cotação atual), que foram fundamentais para a construção da reputação da Luckin. Desde a abertura suave, em 20 de janeiro, houve relatos de tempos de espera que chegaram a três horas.
Este movimento representa a tentativa mais clara da Luckin de invadir um mercado historicamente dominado pela Starbucks, com sede em Seattle, que utilizou suas Reserve Roasteries para estabelecer a ideia de café como uma experiência premium na China.
Em 2017, a Starbucks escolheu Xangai para abrir sua segunda Reserve Roastery no mundo, depois da unidade original de Seattle, acreditando que os consumidores chineses, que tradicionalmente preferem chá, fariam um “trade-up”.
Agora, essa aposta enfrenta desafios, especialmente com a crescente concorrência de redes locais como Manner e Cotti, que frequentemente oferecem bebidas a preços cerca de 50% inferiores aos da Starbucks, além da rápida expansão da Luckin.
A Luckin já superou a Starbucks em número de lojas na China há alguns anos, apoiada por um modelo que utiliza aplicativo e quiosques. A abertura em Shenzhen, que foi anunciada como a sua 30 milésima loja, demonstra o quanto a empresa progrediu desde o escândalo contábil de 2020 que a levou a deixar a Nasdaq.
A companhia reportou receita de US$ 1,55 bilhão (R$ 8,2 bilhões) no trimestre encerrado em setembro de 2025, representando um aumento de quase 48% em relação ao ano anterior, impulsionada principalmente por suas lojas próprias, que compõem a maior parte de sua presença na China. A receita anual estimada é de US$ 5 bilhões. Em comparação, a Starbucks possui pouco mais de 8 mil lojas na China, em contraste com cerca de 16,9 mil no mercado americano.
A resposta da Starbucks tem sido recuar do controle total. A empresa deve finalizar até junho a venda de 60% de seu negócio na China para a Boyu Capital, avaliando a operação em US$ 13 bilhões (R$ 68,5 bilhões), incluindo futuras taxas de licenciamento, enquanto mantém uma participação de 40%. As vendas em mesmas lojas na China melhoraram, mas ainda são modestas, evidenciando a dificuldade de manter margens em um mercado cada vez mais saturado.
A recuperação da Luckin também foi impulsionada por parcerias agressivas de marketing, que vão desde a marca premium de destilados Moutai até desenhos animados e videogames populares, além da habilidade de direcionar clientes através de seu aplicativo, ao invés do atendimento convencional no balcão.
Essa abordagem permitiu à empresa construir uma base de usuários grande e fiel, além de avançar rapidamente para novos formatos à medida que os hábitos de consumo mudam. Há rumores de que a Luckin esteja considerando um crescimento inorgânico mais audacioso, incluindo uma possível oferta pela rede britânica Costa Coffee.
A Centurium Capital, uma gestora chinesa de private equity que está por trás da Luckin Coffee, estaria analisando uma proposta pela rede de cafeterias que está atualmente à venda pela Coca-Cola, que adquiriu a Costa Coffee em 2019. As negociações estariam em estágios iniciais.
O potencial negócio despertou interesse de diversas firmas de buyout e investidores estratégicos, com ofertas indicativas avaliando a Costa Coffee em cerca de US$ 1,3 bilhão (R$ 6,9 bilhões), embora no mês passado tenha surgido a indicação de que a Coca-Cola poderia desistir da venda.
Um possível acordo marcaria o primeiro grande investimento europeu da Centurium e ampliaria sua exposição no mercado global de café.
Nos bastidores, investidores também estariam pressionando por mudanças e por uma maior influência operacional, enquanto a empresa considera uma nova listagem nos Estados Unidos, que foi sinalizada no ano passado pelo CEO Guo Jinyi.
Alguns banqueiros acreditam que uma atuação mais assertiva de patrocinadores financeiros poderia impor a disciplina necessária para a expansão internacional, mesmo com a Luckin Coffee acelerando a abertura de lojas fora da China, incluindo um número crescente em Nova York e uma presença significativa em Singapura e Malásia.
Nesta disputa, vale ressaltar que a Luckin Coffee e a Starbucks obtêm café do Brasil, que é o principal fornecedor da commodity para o mercado chinês, representando cerca de 40% da demanda do país.
No caso da Starbucks, essa relação é histórica e institucionalizada: o Brasil responde por cerca de um quarto a um terço do café adquirido pela empresa em todo o mundo, com compras realizadas através de traders e cooperativas, além de programas diretos com produtores, como o C.A.F.E. Practices (Coffee and Farmer Equity), iniciado em 2004.
A Luckin Coffee também utiliza café brasileiro de forma consistente em seus blends, especialmente arábica, mas opera majoritariamente através de fornecedores e tradings internacionais que abastecem o mercado chinês.











