Além de restaurar as áreas afetadas, os cafeicultores precisam focar em prevenção e planejamento para evitar novos danos, alerta o superintendente da Seapa.
As chuvas acompanhadas de granizo que ocorreram nas últimas semanas em diversas regiões de Minas Gerais levantaram preocupações entre os produtores de café. Em várias propriedades, as pedras de gelo causaram desfolhamento, quebra de ramos, danos aos frutos e afetaram áreas inteiras de produção, em um momento crucial para a recuperação das plantas após a colheita.
Ainda que o granizo seja um fenômeno difícil de prever em nível local, algumas regiões de Minas apresentam uma maior frequência de ocorrências. De acordo com o meteorologista do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Lizando Gemiacki, os registros costumam se concentrar principalmente no Sul de Minas e na Zona da Mata, que possuem um relevo mais acidentado, favorecendo a formação de tempestades severas.
“Estamos passando por uma condição anômala para esta época do ano, que normalmente já seria marcada por um período seco. Pelo menos até os próximos dias, ainda há possibilidade de chuvas com rajadas de vento e eventual queda de granizo em alguns municípios, especialmente no Sul de Minas e na Zona da Mata”, explica.
Ações iniciais
Em face dos prejuízos provocados por esse tipo de chuva, a principal recomendação aos cafeicultores é agir com cautela antes de iniciar qualquer intervenção na lavoura. As orientações técnicas divulgadas pelo Conselho Nacional do Café (CNC) ressaltam que o primeiro passo é realizar uma avaliação cuidadosa dos danos para determinar as medidas de recuperação mais apropriadas.
Nos casos de danos leves, com perda parcial de folhas e pequenos ferimentos nos ramos, a recomendação é continuar com os tratos culturais normais, reforçando a nutrição e o monitoramento fitossanitário da lavoura. Já em áreas onde houve quebras significativas de ramos produtivos ou comprometimento da estrutura das plantas, pode ser necessário realizar podas seletivas para estimular a recuperação da planta.
Outro aspecto importante a ser considerado é o aumento do risco de doenças. Os ferimentos causados pelo granizo podem facilitar a entrada de fungos e bactérias, exigindo acompanhamento técnico contínuo e, quando necessário, a adoção de medidas de controle para evitar perdas adicionais.
Impactos do El Niño
Os eventos recentes reforçam a necessidade de planejamento em um cenário climático cada vez mais instável. Com a intensificação do fenômeno El Niño no segundo semestre de 2026, pode haver alterações no regime de chuvas em várias regiões produtoras do país.
Em Minas Gerais, no que diz respeito ao café, períodos prolongados de calor e déficit hídrico podem prejudicar etapas fundamentais do ciclo produtivo, como a floração e o enchimento dos grãos, afetando tanto a produtividade quanto a qualidade da bebida.
Para mitigar os riscos, a orientação da Secretaria de Estado de Agricultura – Seapa é que os produtores aproveitem a oportunidade para revisar o planejamento da próxima safra. Entre as medidas recomendadas estão a adoção de práticas para conservação da umidade do solo, como cobertura vegetal e plantio direto, uso de cultivares mais tolerantes ao déficit hídrico e planejamento da irrigação, quando houver disponibilidade de água e infraestrutura.
Segundo o superintendente de Inovação e Economia Agropecuária da Seapa, Feliciano Nogueira, o trabalho de orientação técnica se torna ainda mais crucial diante da maior frequência de eventos climáticos extremos. “Diante da expectativa em relação ao El Niño, nosso trabalho com os agricultores e pecuaristas mineiros é orientá-los e assisti-los tecnicamente sobre estratégias que possam minimizar os efeitos do fenômeno climático em suas atividades”.
Feliciano também ressalta que iniciativas voltadas para a produção sustentável e o uso eficiente da água, já disponíveis no estado, podem ajudar a aumentar a resiliência das propriedades rurais. Entre elas estão programas de irrigação sustentável, revitalização de bacias hidrográficas, certificação de boas práticas e ferramentas de planejamento territorial que auxiliam os produtores na tomada de decisões diante das adversidades climáticas. “Em um cenário de crescente variabilidade climática, a prevenção e o planejamento tornam-se tão importantes quanto as ações adotadas após a ocorrência de danos”, conclui.








