No Brasil, o mercado vivenciou uma semana de cautela entre os cafeicultores, com negócios ocorrendo apenas de forma pontual.
Os preços do café arábica encerraram a sessão desta sexta-feira (14) em alta na Bolsa de Nova York, após passarem boa parte do dia em campo misto. De um lado, o mercado permanece sustentado, principalmente pelo ritmo mais lento da colheita brasileira e pelas preocupações com a oferta. Por outro lado, os ajustes naturais e técnicos pressionam, de forma pontual e ligeira, os futuros tanto do arábica quanto do robusta, que é negociado na Bolsa de Londres, em um cenário ainda muito incerto.
O setor cafeeiro, tanto no cenário internacional quanto no Brasil, enfrenta um período desafiador e de difícil previsibilidade. Em entrevista ao Bom Dia Agronegócio desta sexta-feira, no Notícias Agrícolas, o analista de mercado e diretor do Escritório Carvalhaes, Eduardo Carvalhaes, destacou que a combinação de fatores externos tem gerado uma volatilidade intensa nas bolsas, deixando operadores e produtores desorientados.
Dessa forma, o pregão em Nova York terminou com uma alta de 500 pontos em setembro, cotado a 338,10 centavos de dólar por libra-peso; o contrato de dezembro avançou 150 pontos, fechando a 314,30 cents, enquanto o março/27 teve uma queda de 5 pontos, encerrando o dia a 303,20 cents/lb.
Carvalhaes aponta uma série de fatores que compõem esse ambiente nebuloso, incluindo questões climáticas com adversidades em várias regiões importantes de produção, agravadas pelas crescentes perspectivas de um El Niño forte, além dos estoques ajustados globalmente, enquanto a demanda continua forte.
O especialista também mencionou as tensões no Oriente Médio e as consequências da guerra entre Rússia e Ucrânia, que continuam a impactar a circulação de produtos, provocando um verdadeiro choque na logística global, o qual ainda está sendo absorvido e precificado pelos mercados.
Adicionalmente, nesta semana, somou-se a isso o terremoto que atingiu a Colômbia na segunda-feira (10). O tremor foi bastante severo e afetou diretamente as áreas de produção de café no país, mas os prejuízos reais ainda não puderam ser avaliados devido à condição do território colombiano após a catástrofe.
As exportações pelo porto de Buenaventura foram parcialmente retomadas, mas o fluxo ainda permanece intermitente e limitado. Segundo informações citadas pela Barchart, não houve danos significativos nas estruturas de processamento e beneficiamento de café, o que alivia parte das preocupações sobre uma interrupção mais prolongada da oferta colombiana.
Ainda nesta sexta-feira, o mercado recebeu a atualização sobre os trabalhos de colheita fornecida pela Safras & Mercado. De acordo com a consultoria, a colheita da safra 2026/27 do Brasil estava 90% concluída até 12 de agosto, abaixo dos 97% registrados no mesmo período do ano passado e da média de cinco anos, que é de 94%. No caso do arábica, o avanço era de 86%, contra 95% um ano antes.
Na área de atuação da Cooxupé, uma das principais regiões produtoras do país, a colheita alcançava 74,6% até 7 de agosto, também abaixo dos 80,4% registrados no mesmo período do ano anterior. O ritmo mais lento mantém as atenções voltadas para a oferta disponível no curto prazo e oferece sustentação às cotações internacionais.
NO BRASIL, CAUTELA E NEGÓCIOS CONTIDOS
Diante de tantas variáveis, o produtor brasileiro tem adotado uma estratégia mais cautelosa. Carvalhaes explica que o cafeicultor utiliza o café como um “seguro” contra as incertezas econômicas. Por ser uma commodity cotada em dólar e com alta liquidez, o produtor prefere vender o produto gradualmente, conforme a necessidade de caixa, evitando comprometer-se com vendas antecipadas que possam resultar em prejuízos caso a safra futura seja menor.
“Estamos passando por uma nova fase no mundo, com a inteligência artificial e a comunicação em rede, e o café também buscará novos modos de comercialização que ainda não sabemos muito bem como serão”, avalia o especialista, ressaltando que as ferramentas tradicionais de proteção de preço na bolsa têm se mostrado pouco eficazes diante da atual conjuntura.
Além disso, o analista enfatiza que o cenário para a safra 2027/28 já chama a atenção, mas a falta de clareza sobre o tamanho da colheita atual e os desafios climáticos mantêm o mercado em um compasso de espera, reforçando a necessidade de cautela por parte de todos os segmentos da cadeia produtiva, com novos negócios ainda escassos e ocorrendo apenas de forma pontual no Brasil.








