A Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC) formou a primeira geração de RC-Tasters do Brasil, profissionais especializados na avaliação sensorial de cafés torrados. A turma pioneira reúne 33 especialistas e inaugura uma formação voltada ao produto na condição em que chega ao consumidor.
A iniciativa busca tornar a análise do café torrado mais técnica, padronizada e alinhada à percepção de quem compra e prepara a bebida. Para a cadeia, a novidade pode fortalecer o controle de qualidade, o desenvolvimento de produtos e a comunicação sobre o que está na xícara.
O que são os RC-Tasters
RC-Taster é a sigla em inglês para Roasted Coffee Taster, ou avaliador de café torrado. Esses profissionais são preparados para analisar sensorialmente o produto final, considerando atributos percebidos depois da torra e antes do consumo.
A atuação é diferente de uma avaliação limitada ao café verde ou à classificação física do grão. O foco está no café torrado disponível no mercado, permitindo observar como matéria-prima, torra e preparo se expressam na bebida.
Primeira turma reúne 33 especialistas
A ABIC celebrou a formação da primeira turma em 10 de setembro, em São Paulo. O grupo reúne profissionais de diferentes partes do país e representa o início de uma nova referência de qualificação para a indústria de cafés torrados.
O curso foi coordenado por Camila Arcanjo e desenvolvido com o objetivo de formar especialistas capazes de aplicar um protocolo brasileiro de avaliação. A entidade informou que pretende buscar o reconhecimento internacional da norma e da metodologia.
Como funciona a avaliação sensorial
Ciência aplicada aos sentidos
Durante a formação, os participantes estudaram fisiologia dos sentidos, psicofísica, identificação e controle de vieses, percepção de diferenças, escalas de intensidade e desenvolvimento de memória sensorial.
Esses conhecimentos ajudam a reduzir avaliações baseadas apenas em preferências pessoais. O profissional aprende a observar características da bebida com critérios definidos, comparar amostras e registrar percepções de forma mais consistente.
Protocolo brasileiro e norma técnica
A preparação dos RC-Tasters tem como base o Protocolo Brasileiro de Avaliação de Cafés Torrados ABIC, alinhado à NBR 17238 da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). A proposta é oferecer uma linguagem comum para avaliar o café torrado e apoiar decisões de qualidade.
A padronização não elimina a complexidade sensorial do café. Ela cria referências para que diferentes profissionais descrevam, comparem e discutam o produto com maior clareza.
Onde os RC-Tasters podem atuar
Segundo a ABIC, os profissionais podem trabalhar em diferentes pontos da cadeia cafeeira, como:
- controle de qualidade em torrefações, armazéns e supermercados;
- análise e acompanhamento de lotes;
- desenvolvimento de blends;
- avaliação de produtos no varejo;
- consultoria e elaboração de pareceres técnicos.
Na prática, a formação pode aproximar a avaliação sensorial das decisões de compra de matéria-prima, definição de perfis de torra, liberação de lotes e acompanhamento da experiência entregue ao consumidor.
Por que a formação é importante para o mercado
O café torrado é o produto que chega à maioria das xícaras consumidas no país. Avaliá-lo diretamente permite identificar diferenças que podem surgir na torra, no armazenamento, na embalagem e no preparo, além das características herdadas do grão.
Para as empresas, profissionais especializados podem ajudar a comparar lotes, aperfeiçoar blends, investigar desvios e manter padrões de qualidade. Para o consumidor, uma avaliação mais consistente pode contribuir para maior correspondência entre a descrição do produto e a experiência na xícara.
A fonte informa que o Brasil possui mais de mil indústrias de café torrado e que o mercado movimentou R$ 46,24 bilhões em 2025. Esses números ajudam a dimensionar a relevância de profissionais dedicados ao controle e ao desenvolvimento do produto final.
Conexão com produtores e cafés de Minas Gerais
A análise do café torrado também pode valorizar atributos originados na fazenda. Variedade, altitude, processamento, secagem e armazenamento influenciam o resultado final, mas esses atributos precisam ser preservados nas etapas seguintes para aparecerem na bebida.
Para produtores de Manhuaçu e da Zona da Mata, a maior profissionalização da avaliação pode ampliar a importância da qualidade e da rastreabilidade dos lotes. O resultado não é automático: depende de preparo adequado, identificação correta e conexão com compradores que reconheçam os diferenciais.
O leitor pode acompanhar também a matéria do Café Manhuaçu sobre oferta e demanda no mercado global de café, que mostra como qualidade e tipo de produto influenciam a dinâmica internacional.
O que muda para o consumidor
A formação dos RC-Tasters não altera, por si só, a qualidade de todos os cafés disponíveis nas prateleiras. O impacto esperado está na criação de mais conhecimento e critérios para que empresas avaliem, desenvolvam e comuniquem seus produtos.
O consumidor continua devendo observar origem, data de torra, integridade da embalagem, modo de preparo e informações do rótulo. A avaliação sensorial profissional pode complementar esses dados, mas não substitui a escolha individual de sabor e preferência.
Uma nova etapa de padronização
A primeira turma de RC-Tasters representa um passo na construção de uma cultura brasileira de avaliação do café torrado. A continuidade da formação, a aplicação do protocolo e a eventual busca por reconhecimento internacional serão importantes para medir o alcance da iniciativa.
Para a cadeia cafeeira, o avanço combina ciência sensorial, controle de qualidade e valorização do produto nacional. Para os produtores, reforça a importância de entregar lotes bem cuidados e identificados, capazes de sustentar qualidade desde a lavoura até a xícara.
Fonte consultada: Centro do Comércio de Café de Minas Gerais, com informações da ABIC.



















